quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Muito poderíamos, muito não fizemos. Tentamos, mas as peças não se encaixaram. Seus verões foram quentes demais para meus invernos. Nossas primaveras foram inférteis, nossos outonos longos. Um fora consumido pelo outro, restando apenas a partida. Ainda não sei quem partira primeiro, lembro-me apenas do aperto de mãos final. Parei na próxima estação, estava agora em uma nova primavera, diferente da sua.

Querida T.,

Poderíamos ter seguido, mas preferimos sentar-nos para o tempo. Fizemos sala para a vida. Fizemos quarto para o amor. Montamos uma casa, um jardim, um quebra-cabeça. Montamos um ao outro. Esperamos a Primavera, ela veio. Passeamos com o verão. Permanecemos calados junto ao Outono. Escondemo-nos do Inverno que nos encontrou. Foi quando te levantastes e fiquei perplexa. Despediu-se da vida. Deu às costas para o amor. Demolimos a casa, fizemos do jardim um cemitério, perdemos as peças. Demolimos um ao outro. Esperamos as estações, não vieram. Ficamos na mesma estação indefinida. O trem chegou. Você partiu. E partiu-nos em cada pedaço que reescrevo aqui.
Despedi-me sim. Apertei-lhe a mão e o peito. Incomodou-se sim. Acomodou o incômodo até tornar-se imperceptível. Parti pela janela, pulei. Fui notada, louvada, levada para nunca mais e nunca menos. Não sentes pois nunca sentiu. Por meio desta, tento lembrar-te, tendo fazer-te acordar. No entanto, não consigo. Fui apenas uma miragem, cujo frescor e o vento, esqueceram-te de avisar, nunca existiu, nem nunca existirá.

Cara S.,

Não houve sequer uma despedida. Nem ao menos um aceno distante, ou uma palavra pronunciada. Partiras rudemente pela porta da frente, sem ser notada. Percebi tua não-presença alguns séculos depois, e também como ela não me incomodava. Por meio desta, tento incomodar-me, tento me fazer doer. No entando, não sinto. És-me agora insossa e insípida memória.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Nada escreverei de mim nesta carta, creio que o desapontamento fora causado por ti, destinatário. Diga-me, o que sabes dos números?! Talvez seja preciso um pouco mais do que deténs para uma aproximação - não que eu tenha a causado. Creio que teus sistemas encontram-se fracos, ou mesmo em pane. Não vejo o que não me é visto pelos olhos, nem sinto o que não me é sentido pela pele. Não acredito em teu choro, teus males, tuas dores, não as compreendo. Talvez minha aspereza fora um pouco demais para teu estômago fraco.

Querida R.,

Escreva-me uma carta que descreva esse teu corpo fraco. Soma de pele e osso. Nojo. Aproximaste-o tanto do meu que senti-me infectada. Infeccionada. Suas formas pontiagudas feriram-me, sangraram. És, de longe, um vulto mórbido. Parecido ter escapado do túmulo. Apavora-me. Dá-me a vontade de chorar. Um choro lento e doído, interrompido por engasgos. Quando chegas perto e começas a falar, sinto na brisa, um pouco de seu ar. Intragável. Viciei-me em tantas coisas vis. Encantei-me com tão pouco. Agora vejo-te aí. Indigestão humana.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Meu perfume sempre foi fraco, o suficiente para, em raros momentos, tais como este e os que precederam-no, ser notado. Quantas vezes vistes-me abrindo e fechando aquela e outras portas? Quase que infinitas vezes. Pois da última vez que saí deixei-a entreaberta, para que a maior circulação de ar - e de sangue - acordassem-te. E acordaram, mas não a tempo para que você percebesse a hora em que fui embora. E, ainda sonolenta, percebesse a hora em que voltei. Cadê eu? Pare de encarar a porta. Estou ao seu lado. Bom dia...