quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Despedi-me sim. Apertei-lhe a mão e o peito. Incomodou-se sim. Acomodou o incômodo até tornar-se imperceptível. Parti pela janela, pulei. Fui notada, louvada, levada para nunca mais e nunca menos. Não sentes pois nunca sentiu. Por meio desta, tento lembrar-te, tendo fazer-te acordar. No entanto, não consigo. Fui apenas uma miragem, cujo frescor e o vento, esqueceram-te de avisar, nunca existiu, nem nunca existirá.
Cara S.,
Não houve sequer uma despedida. Nem ao menos um aceno distante, ou uma palavra pronunciada. Partiras rudemente pela porta da frente, sem ser notada. Percebi tua não-presença alguns séculos depois, e também como ela não me incomodava. Por meio desta, tento incomodar-me, tento me fazer doer. No entando, não sinto. És-me agora insossa e insípida memória.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Nada escreverei de mim nesta carta, creio que o desapontamento fora causado por ti, destinatário. Diga-me, o que sabes dos números?! Talvez seja preciso um pouco mais do que deténs para uma aproximação - não que eu tenha a causado. Creio que teus sistemas encontram-se fracos, ou mesmo em pane. Não vejo o que não me é visto pelos olhos, nem sinto o que não me é sentido pela pele. Não acredito em teu choro, teus males, tuas dores, não as compreendo. Talvez minha aspereza fora um pouco demais para teu estômago fraco.
Querida R.,
Escreva-me uma carta que descreva esse teu corpo fraco. Soma de pele e osso. Nojo. Aproximaste-o tanto do meu que senti-me infectada. Infeccionada. Suas formas pontiagudas feriram-me, sangraram. És, de longe, um vulto mórbido. Parecido ter escapado do túmulo. Apavora-me. Dá-me a vontade de chorar. Um choro lento e doído, interrompido por engasgos. Quando chegas perto e começas a falar, sinto na brisa, um pouco de seu ar. Intragável. Viciei-me em tantas coisas vis. Encantei-me com tão pouco. Agora vejo-te aí. Indigestão humana.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Meu perfume sempre foi fraco, o suficiente para, em raros momentos, tais como este e os que precederam-no, ser notado. Quantas vezes vistes-me abrindo e fechando aquela e outras portas? Quase que infinitas vezes. Pois da última vez que saí deixei-a entreaberta, para que a maior circulação de ar - e de sangue - acordassem-te. E acordaram, mas não a tempo para que você percebesse a hora em que fui embora. E, ainda sonolenta, percebesse a hora em que voltei. Cadê eu? Pare de encarar a porta. Estou ao seu lado. Bom dia...
Cara Q.,
Acho que não percebi a hora que você foi embora. Fiquei à espreita por dias a fio, e não pude sequer sentir seu cheiro. Acredito que esta tenha sido a melhor forma para compreender - o quê mesmo? Às vezes, encontro-me em meio às memórias de vezes que a via passando por aquela porta, como se fossem infinitas, e imaginava que poderia ser a última. Porém a última falta-me à memória. Sento-me àquela poltrona e espero pacientemente o abrir da porta... Cadê você?
domingo, 20 de setembro de 2009
Diga-me, tem a certeza de ter usado as palavras certas? Se alguma coisa foi levada de você, foi um furto, nunca um roubo. Para haver um roubo seria necessário um contato entre o criminoso e a vítima. Meus olhos nunca encostaram nos teus. Talvez as mãos, com certeza os lábios. Mas tudo que roubei com eles, foram alguns beijos e seu gosto amargo. Nessa ida e vinda de encontros e reencontros, desencontramo-nos, e era justamente isso que tu deverias ter anexado. Pouco importando-me com a complexidade, peço, através desta, que localize o espaço que nossos corpos ocupam no universo. Devido ao crime do qual me acusas, sinto que nenhuma punição seria mais justa do que exilar-me em outra galáxia.
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